Varejo, indústria, infraestrutura, saneamento e agronegócio sentaram juntos no palco do Harvard Club de Nova York nesta segunda-feira (11), no painel “Os protagonistas do novo Brasil: empresas que colocam as onças no mapa”, durante a terceira edição internacional do Brazilian Regional Markets (BRM). Mediado por Felipe Barreto Veiga, sócio-fundador do BVA – Barreto Veiga Advogados, o encontro reuniu Alexandre Ribas, CEO da Falconi, Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato, Antonio Torres, fundador da Fortlev e do Instituto Água Viva, Yaroslav Memrava, diretor de Novos Negócios da Aegea Saneamento, e Luiz Eduardo Schio, presidente do Conselho da Agropecuária Schio. O debate girou em torno de uma constatação comum: empresas que nascem e crescem nos mercados regionais brasileiros desenvolvem vantagens competitivas que players nacionais e internacionais raramente conseguem replicar — e que o capital estrangeiro ainda não aprendeu a enxergar.
Capital intelectual como diferencial: Falconi vê nas empresas regionais o principal ativo competitivo do Brasil
Com 42 anos de história e origem em Minas Gerais, a Falconi é hoje uma das maiores consultorias de gestão do Brasil, com cerca de 600 consultores e operação que já alcança os Estados Unidos. Para Alexandre Ribas, o que diferencia as empresas regionais que escalam das que travam é um fator comum: a densidade de capital intelectual. Quando a liderança é forte e consistente, e quando a empresa desenvolve seus próprios talentos — muitas vezes em parceria com escolas técnicas e comunidades locais — o resultado aparece nos números.
“O que a gente acaba conhecendo ao longo de mais de 40 anos de história dentro da Falconi foi que quando você tem liderança forte, liderança inspiradora e uma densidade de capital intelectual diferenciado dentro das companhias, você eleva as empresas a patamares de resultados acima da média”, afirmou Ribas.
O CEO da Falconi trouxe ainda um dado sobre o cenário macro: a produtividade média das empresas brasileiras cresce 0,5% ao ano, contra 1,5% da média da OCDE e 3% esperado de economias emergentes comparáveis. A saída, na sua visão, passa por desenvolver e socializar conhecimento dentro das organizações — e por enfrentar dois gargalos estruturais: o custo de capital elevado e a instabilidade regulatória.
Grupo Muffato: 121 unidades, R$ 20 bilhões de faturamento e a virada do varejo regional
Fundado há 52 anos em Cascavel, no Paraná, o Grupo Muffato é hoje o sexto maior player do varejo brasileiro, com mais de 26 mil colaboradores e R$ 20 bilhões de faturamento em 2024. Em 2023, o grupo venceu o leilão das 18 lojas do Makro — a maior aquisição do varejo brasileiro naquele ano, feita a partir do interior do Paraná.
Para Ederson Muffato, o movimento do setor nos últimos anos é revelador: enquanto o consenso apontava para a dominância das multinacionais no varejo alimentar, o que aconteceu foi o oposto.
“Há dez, 15, 20 anos, nos nossos eventos e congressos, a tendência era que as multinacionais dominariam o setor. O que aconteceu foi um movimento ao contrário: vários players internacionais saindo do país e operadores locais e regionais ganhando muita relevância”, disse.
O executivo atribuiu esse fenômeno à leitura de mercado que as empresas regionais têm e as multinacionais não conseguem replicar.
“O Brasil é muito grande e muito diversificado. Quem anda 100 quilômetros dentro de um mesmo estado já se depara com outros hábitos de consumo. As marcas locais têm um vínculo com a comunidade que o player internacional, olhando o país de forma empacotada, não consegue enxergar”, completou.
Fortlev e Instituto Água Viva: da caixa d’água ao semiárido nordestino
Fundada em 1990 em Cariacica, no Espírito Santo, a Fortlev cresceu a partir de uma disruptura tecnológica: a substituição do material tradicional pelo polietileno na fabricação de reservatórios, tornando viável a produção de caixas d’água de até 30 mil litros em plástico. Hoje, a empresa opera dez fábricas espalhadas pelo Brasil, presente em todas as camadas sociais.
“Os momentos de disruptura na vida das companhias precisam ser no timing certo para que ela consiga ter um ciclo de longa perenidade”, afirmou Antonio Torres, fundador da Fortlev e do Instituto Água Viva, que já impactou mais de 180 mil pessoas no sertão nordestino com acesso a água potável e geração de renda.
Para Torres, o marco do saneamento, aprovado em 2020, representa não apenas oportunidade de negócio — a Fortlev produz tubos e conexões em PVC para o setor — mas a possibilidade de transformar regiões que ainda carecem de infraestrutura básica.
“Com o marco do saneamento eu vou poder sonhar em ver o sertanejo lá da região do semiárido poder ter água e tratamento de esgoto”, disse.
Aegea Saneamento: 39 milhões de brasileiros atendidos e leilões estratégicos nas onças até 2027
A Aegea Saneamento atende hoje mais de 39 milhões de brasileiros, de cidades com 800 habitantes a metrópoles como o Rio de Janeiro. No Espírito Santo, onde opera desde 2015, a empresa tem projetos em Vitória, Vila Velha e Cariacica, com uma PPP de mais de R$ 580 milhões. Para Yaroslav Memrava, o marco do saneamento de 2020 foi o divisor de águas do setor, ao dar segurança jurídica para investimentos de longo prazo. “São projetos de 30, 35 anos que demandam uma estabilidade para que o investidor possa alocar o capital numa jornada de longo prazo”, afirmou.
Memrava destacou dois movimentos que abrem o setor ao capital estrangeiro: privatizações como a da Copasa, que ampliam o balanço disponível para a iniciativa privada, e instrumentos que aproximam investidores locais dos projetos em seus próprios estados.
“O investidor quer aplicar onde está alocado. Eu quero ver o meu estado ganhando produtividade em saneamento”, disse.
Agropecuária Schio: 22% da maçã brasileira, exportações para 40 países e ativos subprecificados
A partir de Vacaria, no Rio Grande do Sul, a Agropecuária Schio responde por 22% da produção nacional de maçãs e exporta para mais de 40 países. Empresa familiar fundada por imigrantes italianos no extremo sul gaúcho, a Schio processa cerca de 210 mil toneladas de maçãs por ano e emprega diretamente 6 mil pessoas.
Para Luiz Eduardo Schio, o agronegócio brasileiro é um dos ativos mais subprecificados pelo investidor estrangeiro. “O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de frutas, perdendo apenas para China e Índia, e produz quase o dobro do quarto colocado”, afirmou. Schio foi direto ao recomendar alocação de capital no país.
“Os ativos brasileiros vão se valorizar numa média de 10% ao ano nos próximos dez anos, principalmente no agronegócio e na valorização de terras. A gente ainda cultiva apenas 30% do território brasileiro e ainda é capaz de aumentar em pelo menos 40 a 50% a produtividade sem plantar um único hectare a mais”, concluiu.
O Brasil que Wall Street ainda não enxerga: comunicação como próximo passo do desenvolvimento regional
Ao longo do painel, um ponto emergiu com força além dos cases individuais: o Brasil regional é pouco conhecido pelo capital estrangeiro não por falta de resultado, mas por falta de comunicação. Ribas foi direto.
“Você vem aqui para os Estados Unidos, vai falando com os grandes fundos e poucos conhecem esses grupos. Então esse é um trabalho que a gente tem tentado desenvolver: trazer esses nomes com mais frequência e com mais credibilidade”, disse.
Schio reforçou o argumento com um exemplo concreto. “Os investidores aqui adoram investir na fruticultura chilena. Mas o Chile é o maior exportador da América Latina porque não tem mercado interno. O Brasil, além de ser um grande exportador, tem mercado interno, está protegido com a segurança de poder vender seu produto no próprio país. E é isso que quem está atrás do escritório em Wall Street não sabe, porque essa informação é muito estratégica e está escondida”, afirmou.


