O Brasil precisará investir cerca de R$ 1 trilhão para universalizar os serviços de água e esgoto até 2033. A aposta é de Munir Abud, presidente da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) e da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), que aponta como a conta do saneamento subiu de patamar: projeções anteriores falavam em R$ 700 bilhões, mas a atualização já aproxima o desafio da casa do trilhão. O ponto central, segundo Abud, é que esse volume não cabe no orçamento público nem no caixa das companhias. Para a universalização sair do papel, o setor terá de combinar capital privado, projetos bem estruturados e previsibilidade regulatória suficiente para sustentar investimentos de longo prazo.
Leilões de 2026 entram no radar como termômetro do apetite do setor
A leitura de Abud é que o saneamento ganhou centralidade na agenda pública e política, com cobrança crescente da sociedade. “É inegável que o saneamento ganhou centralidade no debate público. Hoje, é um tema presente nas campanhas e cada vez mais cobrado pela sociedade. Essa pressão é positiva, porque eleva o nível de responsabilidade dos gestores e fortalece o compromisso com a universalização”.

Para 2026, o presidente da Cesan e da Aesbe vê um pipeline robusto de operações, com leilões considerados estruturantes. Ele citou como exemplo o leilão da Saneago, de Goiás, estimado em aproximadamente R$ 6 bilhões; e a PPP da Cagepa, na Paraíba, com investimento estimado em R$ 8,4 bilhões.
“Temos um conjunto de projetos relevantes em estruturação. A expectativa é de um ano que começa aquecido, com operações de grande porte. Isso sinaliza maturidade e dinamismo do setor”, destacou.
O pano de fundo desse movimento é a necessidade de mobilizar um volume expressivo de capital em prazo curto. “Estamos falando de uma necessidade de investimento que pode chegar à casa de R$ 1 trilhão. Esse recurso não está concentrado em uma única fonte. O orçamento público é limitado, e as companhias, isoladamente, não conseguem financiar a universalização com recursos próprios. Por isso, a parceria com a iniciativa privada é estratégica”, afirmou.
Na visão do executivo, atrair esse capital depende diretamente de estabilidade regulatória e segurança contratual, sobretudo por se tratar de projetos de retorno longo. “O investidor precisa ter previsibilidade. É fundamental que os contratos estejam protegidos de mudanças conjunturais a cada ciclo eleitoral. Saneamento é política de Estado, não de governo. A estabilidade institucional é condição para investimentos de longo prazo”, pontuou.
Espírito Santo tenta antecipar relógio do Marco do Saneamento
Se no Brasil a discussão é como mobilizar R$ 1 trilhão até 2033, no Espírito Santo a agenda ganhou um componente extra: tempo. O estado tem avançado para se colocar entre os primeiros a chegar à universalização, com a Região Metropolitana trabalhando com metas de antecipar a cobertura total de esgoto para 2026/2027, em linha com o esforço de acelerar a melhoria da balneabilidade e a despoluição de áreas como a Baía de Vitória.
O movimento não começou agora. Nos últimos anos, o Espírito Santo virou um “case” nacional de estruturação via PPPs: em 2020, a Aegea venceu o leilão de esgotamento sanitário de Cariacica e Viana realizado na B3, em um modelo que abriu caminho para a expansão do programa. E, em 2025, o estado deu o passo mais ambicioso até aqui ao realizar o leilão internacional para ampliar o tratamento de esgoto em 43 municípios, um pacote associado a quase R$ 7 bilhões em investimentos e tratado pelo governo como marco para acelerar a corrida rumo à universalização.
À época do último leilão, Abud afirmou que “a população capixaba pode esperar melhorias de todo lado. Serão R$ 7 bilhões aplicados na economia capixaba na melhoria do saneamento básico. E isso significa balneabilidade para as nossas praias, melhoria do IDH, mais qualidade de vida, valorização do metro quadrado, renda de turismo e geração de emprego, a expectativa é que sejam criados aproximadamente 20 mil empregos diretos. Com isso, o Espírito Santo desponta na corrida dos estados para atingir a universalização e, quem sabe, ser o primeiro do país a alcançar essa meta”, destacou.


