Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo Mercosul-União Europeia foi assinado nesta semana, no Paraguai. Na prática, ele reduz tarifas, amplia acesso a mercados e reposiciona cadeias produtivas ao longo dos próximos anos, ao mesmo tempo em que eleva a pressão competitiva sobre os setores mais expostos à concorrência europeia. Para as Onças Brasileiras – conjunto de estados com maior dinamismo econômico, institucional e exportador, incluindo Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul –, o impacto tende a ser ainda mais relevante: mesmo com uma participação menor das exportações destinadas à UE, o grupo tem uma pauta mais concentrada em commodities e agroindústria, justamente onde o tratado tende a destravar maiores ganhos. Entenda.
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Acordo abre mercado, mas também força uma “triagem” competitiva
A assinatura chega num momento em que comércio e geopolítica voltaram a andar juntos. A União Europeia tem buscado ampliar parceiros estratégicos e reduzir dependências em um cenário de reorganização das cadeias globais, e o acordo com o Mercosul entra como peça desse reposicionamento. Do ponto de vista econômico, o movimento tem dois vetores simultâneos.
O primeiro é a abertura comercial: a expectativa é de aumento relevante das exportações europeias para o Mercosul, puxadas por segmentos industriais mais competitivos, como automotivo, químico e maquinário. Do lado sul-americano, a janela se abre principalmente para o agro e a agroindústria, ainda que com mecanismos de proteção em itens considerados sensíveis.
O primeiro vetor é menos comemorado por alguns setores, mas talvez seja o mais importante para negócios: a competição sobe. Com tarifas mais baixas, determinados produtos e tecnologias europeias chegam mais acessíveis no mercado brasileiro, pressionando margens e obrigando uma corrida por eficiência. Entre os setores que tendem a sentir mais esse choque competitivo estão categorias industriais como equipamentos elétricos, máquinas e equipamentos e farmacêuticos.
Existe ainda um efeito indireto que costuma passar batido. Quando um grande acordo entra em cena, empresas não reorganizam apenas a rota Mercosul–UE. Elas ajustam estratégias com outros mercados, redesenham cadeias de suprimento, renegociam contratos e recalibram preço e portfólio. Ou seja: o impacto vai além do “para onde exporto”, e chega no “como eu produzo e em que posição eu fico”.
Nesse tabuleiro, as Onças Brasileiras entram com uma vantagem estrutural: em média, elas direcionam uma fatia um pouco menor das exportações à União Europeia do que o Brasil como um todo (12,9% em 2025, contra 14,3% do Brasil), mas carregam uma composição mais concentrada em commodities e produtos da agroindústria. Na prática, isso tende a aumentar a capacidade do grupo de capturar ganhos com a redução tarifária justamente nos segmentos em que o acordo abre mais espaço.
A síntese de Orlando Caliman, diretor econômico da Apex, resume essa lógica de forma objetiva: “Ao diminuir as barreiras tarifárias, os setores de maior tecnologia e competitividade do país conquistam um mercado maior no exterior.”
O potencial de destravar volume aparece principalmente em produtos que já têm peso na pauta exportadora das Onças para a Europa, como café, farelos de soja, celulose, tabaco, ferro-gusa e carne bovina. Em itens como café, a tendência é de eliminação mais rápida de tarifas em boa parte das linhas. Já em setores mais sensíveis, como carne bovina, o acesso se dá por cotas, o que limita volume e exige estratégia comercial fina: escolher mercado, canal, certificação, padronização e logística.
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