O Brazilian Regional Markets (BRM) desembarcou nesta segunda-feira (11) em Nova York para abrir a Brazil Week no Harvard Club of New York City. A terceira edição internacional do evento, promovido pela Apex, reúne governadores, prefeitos, empresários, investidores e lideranças institucionais para debater competitividade, inovação e oportunidades de investimento nos mercados regionais mais promissores do Brasil — estados que hoje representam 36% do PIB brasileiro e crescem de duas a três vezes acima da média nacional. Na abertura, Fernando Cinelli, fundador e presidente da Apex, Ricardo Frizera, sócio-diretor, e Betina Roxo, estrategista-chefe, apresentaram a tese central do encontro: o Renascimento do Brasil.
Assimetria estrutural entre economia descentralizada e capital concentrado
Fernando Cinelli abriu o evento com o diagnóstico que sustenta o propósito do BRM. Na sua avaliação, a maior distorção do mercado brasileiro não está nos fundamentos econômicos — está na geografia do capital. Enquanto as cadeias produtivas que alimentam o país cresceram descentralizadas nas últimas décadas, espalhadas pelo agronegócio, pela energia, pela tecnologia, pela logística e pelas empresas familiares, a infraestrutura do mercado de capitais permaneceu concentrada no eixo Rio–São Paulo.
“O Brasil real vai muito além do tradicional mercado financeiro. As cadeias produtivas que alimentam o país estão espalhadas — agro, energia, tecnologia, logística, empresas familiares. E mesmo assim, durante décadas, a infraestrutura de capital permaneceu concentrada. Isso gerou uma assimetria estrutural: enquanto a economia brasileira crescia descentralizada, o mercado de capitais permanecia centralizado”, afirmou Cinelli.
Para o fundador da Apex, corrigir essa assimetria é o movimento central do próximo ciclo. Os mercados regionais brasileiros nunca foram periféricos: são centrais para o crescimento do país, para a formação de capital e para a nova economia brasileira. E o futuro, na visão da gestora, já aponta para uma direção clara.
“Acreditamos que o futuro do mercado de capitais brasileiro será mais descentralizado, mais regional, mais próximo do empreendedor. Essas regiões estão silenciosamente ajudando a redefinir o crescimento do Brasil. O Brasil do futuro passará por essas regiões”, completou.
Quatro pilares sustentam a tese: pêndulo político na América Latina não se via desde 1990
O Renascimento do Brasil, na formulação de Ricardo Frizera e Betina Roxo, se apoia em quatro pilares. O primeiro é político: a América Latina vive uma nova onda de reposicionamento, com avanço de governos de direita e centro-direita em diferentes países.
No Brasil, as eleições municipais nunca apontaram um avanço tão expressivo nessa direção desde 2000. Na América Latina, a projeção para 2026 aponta oito presidentes à direita e dois à esquerda — pêndulo que não se via desde 1990.
O segundo é geopolítico: neutro em um mundo em conflito, o Brasil se posiciona como destino de Friendly Shoring e Green Shoring, atraindo empresas que buscam países politicamente amigáveis e sustentáveis.
O terceiro é cíclico: a guerra no Irã fechou o estreito de Hormuz e favorece países produtores de commodities. “Para o Espírito Santo, segundo maior produtor de petróleo do Brasil, o PIB do estado pode crescer 1,83%, sendo 1,2% a mais, com o barril sustentavelmente acima de 100 dólares”, apontou Frizera.
O quarto pilar, e o mais estrutural, é o agronegócio produtivo. Nos últimos 34 anos, o setor cresceu mais de 430% em produtividade. O Brasil corresponde a 2% do PIB mundial, mas responde por 11% da capacidade de produção alimentícia do planeta e o agronegócio já representa 49% das exportações nacionais. No mercado de capitais, o setor privado representa 84% dos investimentos em infraestrutura e o mercado de capitais já responde por 41% do funding imobiliário.
“Existe um Brasil fora dos índices, que tem muitas outras oportunidades e que tem sido muito favorecido por esses pilares”, afirmou Betina Roxo.
Novo capitalismo, nova elite: tecnologia, indústrias familiares e agronegócio como agentes do ciclo
A analogia com o Renascimento italiano parte da observação de que todo grande ciclo econômico foi acompanhado por uma mudança cultural e por uma nova elite. No Brasil atual, essa elite emerge da tecnologia, das indústrias familiares e do agronegócio produtivo — muitas delas representadas no próprio evento.
“O Brasil que a gente acredita no renascimento é o Brasil que se beneficia desses fatores conjunturais, político, geopolítico, cíclico, do fator estrutural das onças e do crescimento do agronegócio produtivo. Mas é um Brasil que renasce com uma nova filosofia, com uma nova visão de capitalismo, com uma nova visão econômica”, concluiu Frizera.
O mundo conspira a favor do Brasil
No painel sobre cenário macroeconômico, Cristiano Souza, fundador da Zeno Equity Partners, trouxe a perspectiva de quem passou mais de uma década investindo fora do Brasil e reencontrou no país uma das melhores oportunidades do mercado global. Na sua leitura, o cenário internacional conspira diretamente a favor de uma região exportadora como o Brasil e a América Latina: a Ásia, a Índia e a Europa são estruturalmente deficitárias em energia e dependem do resto do mundo para suprir sua demanda. “O mundo é cada vez mais deficitário em energia. A Ásia inteira, a Índia, a Europa — nenhum deles é capaz de produzir o suficiente para atender suas próprias demandas”, disse Souza.
Essa leitura levou o investidor a reverter completamente sua posição. Sem capital alocado no Brasil por anos, ele reposicionou o fundo a partir do final de 2024 — exatamente quando o mercado jogava a toalha. “O dólar bateu 6,20, a Bolsa tinha despencado. Naquele momento eu parei e falei: está na hora de olhar o Brasil de novo”, afirmou. Hoje, 25% do fundo global da Zeno está alocado em América Latina, com a maior parte no Brasil e uma posição também na Argentina.
“O Brasil não deve nada a ninguém em termos de qualidade empresarial. O que eu vejo hoje é um mercado com muito risco superestimado e muita oportunidade subestimada”, concluiu Souza.
O investimento direto estrangeiro de 2025 já coloca o Brasil em primeiro lugar no fluxo líquido global — reflexo de um país que reúne ativos baratos, commodities estratégicas e base empresarial de qualidade comparável à de qualquer mercado desenvolvido


