No dia 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã, mirando diretamente a cúpula do regime. O episódio elevou de imediato o grau de incerteza geopolítica global e reacendeu um risco que rapidamente transborda do campo militar para o econômico: a disrupção no mercado de energia. O barril Brent ultrapassou os US$100 pela primeira vez em quatro anos, chegando a se aproximar de US$120 nos momentos de maior tensão. Para o Brasil, o efeito é ambíguo. Para as Onças Brasileiras, conjunto de estados com maior dinamismo econômico e exportador do país incluindo MT, MS, GO, ES, PR, SC, MG e RS, os impactos tendem a aparecer com mais força, dada a maior integração com o comércio internacional e com os países do Golfo Pérsico. Entenda.
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O Estreito de Ormuz e o custo que todo exportador vai sentir
O ponto mais sensível do conflito não está apenas no petróleo iraniano, que responde por cerca de 3,5% da oferta global, mas no Estreito de Ormuz, rota por onde transita aproximadamente um quinto do petróleo comercializado no mundo. A Guarda Revolucionária iraniana chegou a bloquear a passagem e atacar embarcações, o que produziu forte redução no tráfego marítimo, elevação do seguro marítimo e pressão sobre o frete internacional. Para quem exporta commodities agrícolas ou minerais a granel, esse encarecimento logístico não é abstrato: ele corrói margens, eleva prazos e força renegociações de contrato.
“As Onças carregam uma exposição estrutural a esse choque. A corrente de comércio desses estados representa 34% do PIB do grupo, bem acima da média nacional de 26,5%, e o saldo da balança comercial equivale a 9% do PIB, o dobro da média do Brasil. São economias que dependem do comércio para crescer e que, por isso, sentem mais rápido qualquer alteração no custo de mover mercadorias pelo mundo”, aponta Lucas Schuller, especialista econômico da Apex.
Petróleo e fertilizantes: os dois lados do problema para o agronegócio
O Brasil produz quase 4 milhões de barris por dia e mantém superávit no comércio de petróleo bruto, o que, em tese, é positivo num cenário de preços elevados. O problema está nos derivados. O país ainda importa volumes relevantes de diesel, GLP e insumos petroquímicos, e os preços internos não reagem de imediato, mas tendem a subir se o Brent se mantiver em patamares altos por mais tempo. Entre as Onças, apenas o Espírito Santo tem produção relevante de petróleo; os demais estados do grupo dependem mais dos derivados.
“Quando o petróleo sobe, o impacto não fica restrito aos combustíveis. Ele pressiona custos de transporte, fertilizantes, produção industrial e inflação global. No caso do Brasil, o efeito é misto. Hoje, a gente produz cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia, o que pode melhorar os nossos termos de troca quando os preços sobem, mas ao mesmo tempo a gente ainda importa derivados, o que acaba pressionando custos logísticos e inflação doméstica. Quando a gente olha para as Onças Brasileiras, a conexão com o comércio global fica ainda mais clara. A corrente de comércio desses estados representa cerca de 34% do PIB, enquanto na média brasileira esse número está mais próximo de 26%”, explica Betina Roxo, estrategista-chefe da Apex.
O segundo vetor de pressão sobre o agro é ainda mais direto: os fertilizantes. Os países do Golfo respondem por cerca de 11% dos adubos importados pelo Brasil, e a cadeia global de produção de fertilizantes nitrogenados depende fortemente do gás natural, insumo no qual o Irã tem papel relevante como fornecedor regional. Combinado à eventual depreciação do real e ao aumento dos custos logísticos, o efeito sobre o custo de produção no campo pode ser significativo. Para estados como MT e GO, onde os insumos agrícolas chegam a representar mais da metade das importações, o risco é concreto.
Comércio direto com o Golfo: exposição maior do que parece
À primeira vista, o comércio direto do Brasil com os países do conflito é modesto: apenas 0,9% da corrente de comércio exterior no período março–junho de 2025. Entre as Onças, essa fatia sobe para 3,4%, quase quatro vezes mais. As exportações mais relevantes concentram-se em carnes (especialmente frango), açúcar, milho, soja e minério de ferro, enquanto as importações estão ligadas a adubos e insumos industriais.
PR e RS lideram essa exposição entre as Onças. O Paraná direcionou 4,8% da sua corrente de comércio para os países do Golfo no período, e o Rio Grande do Sul, 5,5%. Cereais e carnes são as categorias mais sensíveis, com mais de 20% das exportações estaduais dessas categorias indo para a região diretamente impactada em alguns casos.
Um choque assimétrico dentro do próprio Brasil
Mais do que um evento de mercado, o conflito revela como choques externos produzem efeitos heterogêneos dentro do Brasil. Petróleo mais caro beneficia regiões produtoras e exportadores líquidos de commodities, mas pressiona quem depende de derivados e insumos importados. A valorização do dólar pode compensar parcialmente os custos logísticos para estados com superávit comercial, mas amplia o repasse inflacionário para toda a cadeia.
A duração do conflito, a situação do tráfego no Estreito de Ormuz e a eventual entrada de outros países no confronto são as variáveis que vão determinar se os impactos ficam concentrados ou se ganham escala. O que já está claro é que as economias mais integradas ao comércio internacional, justamente as Onças, serão as primeiras a sentir cada movimento.


