A inteligência artificial revolucionou a forma como empresas operam: automatizou processos, reduziu custos e abriu oportunidades em praticamente todos os setores da economia. Mas o mesmo avanço que trouxe eficiência para os negócios também ampliou a superfície de ataques cibernéticos. Segundo o Relatório Global de Ameaças 2026 do FortiGuard Labs, laboratório da Fortinet, o Brasil encerrou 2025 com 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos, com um salto de 535% na distribuição de malwares em relação ao ano anterior. Dados da Check Point Research apontam que, no segundo trimestre de 2025, o país registrou uma média de 2.831 ataques cibernéticos semanais por organização.
Nesse cenário, empresas especializadas em cibersegurança passaram a desenvolver suas próprias soluções de inteligência artificial para combater as ameaças. A Ayko, empresa sediada em Vila Velha, no Espírito Santo, é um dos casos mais concretos desse movimento no Brasil. Segundo a companhia, o custo de um ataque hacker bem-sucedido equivale, na prática, a três ou quatro anos do valor de um contrato de proteção preventiva.
Com IA, ataques cibernéticos ganharam velocidade e precisão
O crescimento dos ataques cibernéticos não é apenas de volume, é de velocidade e precisão. Com ferramentas de inteligência artificial cada vez mais acessíveis, o tempo entre a identificação de uma vulnerabilidade e a execução do ataque caiu para menos de 24 horas, segundo o FortiGuard Labs. Para as empresas, isso significa que o modelo tradicional de monitoramento humano, no qual cada alerta é analisado individualmente por um analista, passou a ser inviável. O processo era lento, caro e sujeito a erro.
Foi exatamente esse cenário que levou empresas de cibersegurança a repensar suas operações. Um dos problemas centrais estava no volume de alertas gerados pelas ferramentas de monitoramento: a maior parte era falso positivo, mas cada um precisava ser verificado manualmente. O gargalo consumia tempo, equipe e orçamento, sem garantia de que os ataques reais seriam identificados a tempo.
Giuseppe Feitoza, CEO da Ayko, aponta que esse contexto fez com que a empresa desenvolvesse uma solução própria de monitoramento.
“A gente contratava uma ferramenta de terceiro que olhava para os logs e gerava alertas — 90% eram falsos positivos. Cada alerta tinha que bater na mão de um humano, que levava tempo para correlacionar tudo e tomar uma decisão”, afirma o CEO.
A automação desenvolvida internamente eliminou a triagem manual em 95% dos casos, em menos de um quinto do tempo de um analista. O impacto financeiro de uma falha nesse processo é expressivo: segundo a companhia, o custo de um ataque hacker bem-sucedido equivale, na prática, a três ou quatro anos do valor de um contrato de proteção preventiva. Ao adotar ferramentas externas de IA para analisar os dados de segurança dos clientes, a empresa se deparou com um segundo problema: os dados trafegavam para fora da empresa, sem controle sobre como eram tratados.
A solução foi trazer modelos de IA open source para operar internamente. “Quando ela não sabia algo, fazia uma consulta numa IA pública, mas os dados eram mandados de forma anônima. A nossa IA interna sabia que era do cliente X, mas o que saía para fora era anonimizado”, explica o CEO.
Quando os modelos de linguagem chegaram, o processo ganhou uma camada a mais: os alertas passaram a ser enriquecidos com contexto e entregues com roteiros de resposta formatados para o CEO, o CFO ou o time técnico da empresa afetada.
O Jensen Huang capixaba: a vantagem de quem chegou primeiro à infraestrutura
A posição da Ayko no mercado de cibersegurança com IA é resultado de duas décadas de investimento em infraestrutura de dados. Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, passou décadas construindo GPUs para um mercado de games e descobriu, quando a IA explodiu, que havia criado a infraestrutura que o mundo inteiro precisava. No mercado capixaba, Giuseppe Feitoza seguiu a mesma lógica: o de quem chegou primeiro à infraestrutura e colhe agora os frutos de uma aposta feita quando poucos entendiam o valor daquilo.
Feitoza passou duas décadas construindo data centers, redes privadas e nuvem própria para empresas capixabas e chegou ao momento da IA com dados dentro de casa, infraestrutura própria e governança estruturada conforme a ISO 42001 (leia-se: norma internacional de governança de inteligência artificial), num momento em que a maioria das empresas brasileiras que tenta implementar IA ainda enfrenta dados fragmentados, infraestrutura terceirizada e ausência de políticas claras sobre o que pode ou não sair da empresa.
Com a governança estruturada e a IA operando em cibersegurança, a Ayko passou a replicar o mesmo modelo para outras áreas da empresa. Hoje, cada coordenação tem pelo menos uma iniciativa de IA ativa, resultado da dissolução do antigo departamento de inovação, cujos integrantes passaram a trabalhar diretamente com as áreas de negócio.
“Todo mundo hoje entende que, se existe alguma coisa repetitiva que pode ser feita melhor por uma IA, ela será automatizada. A gente tem um backlog crescente de iniciativas para melhorar a eficiência da empresa”, afirma Feitoza.
O próximo passo é levar esse modelo para fora: a empresa desenvolve, em parceria com clientes, novas empresas construídas como “AI first”, organizações onde toda a estrutura nasce com inteligência artificial integrada desde o início, sem os legados que travam a transformação digital de negócios mais antigos.
“Não vai existir nenhuma área de negócio que não será revolucionada pela inteligência artificial. O empresário que hoje acha que é AI proof (imune aos impactos da inteligência artificial) é o cara que daqui a três anos vai ter um problema gigantesco”, avalia Feitoza.


