A instalação da fábrica da GWM em Aracruz deve gerar impacto econômico relevante no Espírito Santo antes mesmo do início da produção de veículos. Apenas durante a fase de implantação da planta, o investimento de R$ 5,8 bilhões da montadora chinesa deve movimentar quase R$ 10 bilhões em Valor Bruto da Produção no Estado, adicionar R$ 3,63 bilhões ao PIB capixaba e gerar R$ 174 milhões em ICMS para os cofres estaduais.
A conta é estratégica porque ajuda a dimensionar a decisão do governo capixaba de doar o terreno para viabilizar a instalação da montadora chinesa. Considerando uma área estimada em 1,7 milhão de metros quadrados e um valor médio de R$ 100 por metro quadrado para terra nua, o terreno teria valor aproximado de R$ 170 milhões. Ou seja: só com o ICMS previsto na implantação, a operação praticamente se pagaria para o Estado antes mesmo de o primeiro carro sair da linha de montagem.
A conta que explica a aposta do Espírito Santo
Os números fazem parte de um estudo realizado por Orlando Caliman, diretor econômico da Apex, a partir das matrizes de insumo-produto do Brasil e do Espírito Santo. A análise considera apenas os impactos da implantação da fábrica — obras, montagem da planta, contratação de serviços, compra de insumos e movimentação de fornecedores — e ainda não inclui os efeitos da produção dos veículos.
“Aqui, estamos assumindo um investimento de R$ 5,8 bilhões, que é o CAPEX total da empresa. Quando você investe, você impacta a localidade onde o investimento está ocorrendo. Você compra serviços, emprega pessoas, movimenta fornecedores e faz o dinheiro circular. Isso faz com que a economia local cresça”, afirma Caliman.
Segundo o estudo, a fase de implantação da GWM deve gerar R$ 493,5 milhões em impostos no Espírito Santo. Além dos R$ 174,09 milhões em ICMS, a estimativa inclui R$ 57,32 milhões em imposto de importação, R$ 149,37 milhões em IPI e R$ 112,77 milhões em outros tributos. Embora nem todos sejam tributos estaduais, o conjunto mostra o tamanho do impacto fiscal provocado apenas pela instalação da planta.
Para Caliman, o dado do ICMS é especialmente relevante porque mostra que o investimento público feito para atrair a montadora tem retorno fiscal imediato, ainda na etapa de instalação da fábrica.
“Só com a instalação da fábrica, sem falar ainda da produção dos automóveis, o investimento gera aproximadamente R$ 174 milhões em ICMS. Isso é praticamente o equivalente ao valor estimado do terreno. Do ponto de vista do investimento público, é uma decisão muito bem feita, porque se paga antes mesmo de a fábrica começar a produzir”, analisa o economista.
O impacto também aparece na geração de renda. A implantação da fábrica deve movimentar R$ 1,44 bilhão em salários e contribuições no Espírito Santo. Já o Valor Adicionado Bruto, indicador que mede a riqueza efetivamente agregada pela atividade econômica, deve alcançar R$ 3,13 bilhões no Estado.
O efeito econômico, porém, vai além da conta fiscal. Na avaliação de Caliman, a chegada da GWM representa um divisor de águas para a economia capixaba, por inserir o estado em uma cadeia industrial de maior complexidade, conectada à tecnologia, à robotização e à mobilidade elétrica.
“Eu considero a GWM o grande marco do novo ciclo da economia capixaba. É a âncora principal da passagem entre o legado econômico que nos trouxe até aqui e uma nova etapa, conectada à indústria de alta tecnologia, à robotização e à economia digital”, afirma.
Da obra à operação, uma nova cadeia industrial
A fábrica da GWM em Aracruz será voltada à produção de veículos eletrificados e deve operar com alto nível de automação. Esse perfil tende a demandar mão de obra mais qualificada e abrir espaço para fornecedores em áreas como metalmecânica, componentes, logística, armazenagem, distribuição, tecnologia embarcada e, futuramente, até baterias.
Na prática, a primeira fase do projeto deve gerar impacto concentrado nos próximos anos, durante as obras, a montagem da estrutura industrial, a instalação dos equipamentos e a conexão da fábrica à infraestrutura necessária para operar. Nesse período, setores como construção, engenharia, estruturas metálicas, serviços industriais, energia e logística devem ser diretamente demandados.
O impacto mais permanente, no entanto, virá com a operação da montadora. A produção de veículos deve movimentar uma cadeia mais ampla, envolvendo importação de componentes, serviços portuários, distribuição nacional, armazenamento, transporte, comercialização e exportação. No início, a operação deve seguir o modelo em que peças e componentes são importados e montados localmente. A expectativa é que, com o avanço da produção, cresça também a possibilidade de nacionalização e regionalização de fornecedores.
“Quando a fábrica estiver em plena produção, os efeitos serão muito maiores. Você passa a ter impactos para trás, na cadeia de suprimentos, e para frente, na comercialização, distribuição, logística e exportação”, afirma Caliman.
Para Caliman, esse é o ponto central: a fábrica não deve ser vista apenas como um investimento isolado, mas como uma âncora para a criação de uma nova cadeia produtiva no Estado.
“O grande desafio, agora, é transformar esse investimento em desenvolvimento de longo prazo. A GWM pode ser a âncora para atrair fornecedores, qualificar empresas locais e elevar o padrão tecnológico da indústria capixaba. É isso que faz dela um marco para a economia do Espírito Santo”, conclui.


