Santa Catarina estuda transformar o subsolo das minas de carvão desativadas de Criciúma em infraestrutura para data centers internacionais. O projeto, conduzido pela Satc (Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão) com financiamento da Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina), avalia se as condições ambientais do subterrâneo das minas, especialmente a temperatura constante e a umidade, podem reduzir os custos operacionais de centros de dados e viabilizar uma nova vocação econômica para a região carbonífera. A iniciativa chega em um momento em que a demanda global por infraestrutura digital cresce em ritmo acelerado, pressionada especialmente pelo avanço da inteligência artificial.
Temperatura constante no subsolo pode reduzir custo energético e hídrico dos centros de dados
O ponto central da pesquisa é econômico: data centers são grandes consumidores de energia e de água, principalmente por causa da necessidade constante de resfriamento dos equipamentos. Segundo o EESI (Environmental and Energy Study Institute), uma instalação de grande porte pode consumir até 18,9 milhões de litros de água por dia, volume suficiente para abastecer uma cidade de 10 a 50 mil habitantes. A hipótese da Satc é que o ambiente subterrâneo das minas, com temperatura naturalmente mais baixa e estável, diminuiria a demanda por sistemas de refrigeração ativos, reduzindo tanto o consumo de energia quanto o de água.
“No subsolo de uma mina tem uma temperatura constante para reduzir o custo de demanda de energia e de resfriamento do data center”, afirmou Fernando Zancan, diretor-executivo da Satc.
O estudo também avalia se as minas possuem a infraestrutura necessária para abrigar os centros, incluindo conectividade de internet e fornecimento de energia adequado.
Modelo visto na Itália inspira proposta catarinense
A ideia não surgiu do zero. Zancan conheceu um caso semelhante na Itália, onde um data center foi instalado abaixo de uma mina e o mesmo espaço subterrâneo passou a abrigar câmaras frias para armazenamento de maçãs, vinhos e espumantes em processo de envelhecimento.
“Ali também tem câmara fria para guardar maçã, vinho e para envelhecer espumante. Eles criaram um uso de espaço para atender as demandas de outras atividades”, destacou o diretor-executivo.
O paralelo ilustra uma tendência que vem ganhando força em regiões com histórico de mineração ao redor do mundo: a reconversão de estruturas subterrâneas ociosas para usos de alta tecnologia, aproveitando características físicas que seriam inviáveis de replicar na superfície a custo competitivo.
ANM e Senado entram no debate regulatório
Um dos principais obstáculos ao projeto é regulatório. Em 2025, a ANM (Agência Nacional de Mineração) encaminhou um ofício para fomentar uma discussão federal sobre o uso de minas desativadas para finalidades distintas da mineração.
“Quando se abre uma mina, só tem um plano de fechamento. Se usar para outro motivo, precisa ter uma discussão de como vai usar esse espaço”, explicou Zancan.
No Senado, o tema foi levado pelo senador Esperidião Amin (Progressistas-SC), com o objetivo de incluir a região Sul catarinense no Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), instrumento federal voltado à viabilização e expansão da infraestrutura digital no país. A inclusão no Redata seria condição essencial para tornar a proposta economicamente atrativa a investidores.
Próximo passo: investidor italiano visita a região carbonífera
O estágio atual do projeto é de mapeamento e qualificação técnica das minas disponíveis. Zancan reconhece que o horizonte de execução ainda é longo.
“Tudo é busca de redução de custo para os data centers. O custo da energia também tem que ser competitivo. Não é projeto para amanhã, é toda uma construção”, disse.
O próximo movimento concreto previsto é a vinda de um investidor italiano à região carbonífera de Criciúma para conhecer as instalações e avaliar a viabilidade in loco. Entre os pontos a serem investigados está o potencial de aproveitamento da água acumulada nas minas para o processo de cooling (resfriamento) dos equipamentos. O resultado dessa visita deve definir se a proposta avança para a etapa de licenciamento junto à ANM.


