Os mercados regionais brasileiros cresceram 102% mais rápido do que as demais regiões do país e já concentram 39% das vendas da CVC Corp no Brasil, dentro de um portfólio de R$ 17 bilhões em reservas, contra apenas 19% do turismo receptor operado pela companhia. Os números foram apresentados por Fábio Mader, CEO da CVC Corp, durante painel do BRM São Paulo, e mostram que as chamadas “onças brasileiras” (leia-se: estados que vêm crescendo acima da média nacional) lideram as vendas da companhia, mas ainda estão subexplorados como destino turístico, segundo o CEO.
De 9 empresas a 482 novas lojas: como a CVC estruturou sua expansão nos mercados regionais
A CVC Corp é um grupo formado por nove empresas, seis no Brasil e três na Argentina, com volume de reservas próximo de R$ 17 bilhões em 2025, sendo 75% gerados no Brasil e 25% na Argentina. Dentro do mercado brasileiro, os estados chamados de “onças brasileiras” (Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) respondem por 39% das vendas nacionais da companhia, superando todas as demais regiões combinadas. O crescimento dessas praças foi 102% superior ao das outras regiões brasileiras no mesmo período. Das 482 novas lojas abertas pela marca CVC Viagens nos últimos dois anos, cerca de metade foi inaugurada justamente nesses estados.
“A região vem muito acima das demais regiões do Brasil”, afirmou Mader.
A meta de clientes reforça a escala do movimento: a companhia projeta sair dos atuais 60 mil clientes ativos para 100 mil até o fim deste ano, encerrando 2027 com cerca de 180 mil, mais do que o triplo da base atual.
Para CEO da CVC, mercados regionais são o principal vetor de crescimento do turismo
Se pelo lado das vendas as onças já lideram, pelo lado do turismo receptor, ou seja, como destino efetivo de viagens, o cenário ainda é de subrepresentação expressiva: a região concentra apenas 19% do turismo nacional operado pela CVC, menos da metade do seu peso nas vendas. O Nordeste segue dominante como destino. Para Mader, esse desequilíbrio entre o poder de compra regional e a oferta de destinos locais é, antes de tudo, a maior oportunidade de crescimento do setor. “Nós temos hoje um turismo muito concentrado no Nordeste. O ponto aqui é que há uma oportunidade muito grande”, pontuou o CEO.
O dado ganha escala quando comparado ao cenário internacional: o Brasil inteiro recebeu cerca de 9,3 milhões de turistas estrangeiros em 2025, recorde histórico, mas ainda inferior ao número de visitantes anuais da Torre Eiffel, que supera 20 milhões. “O país inteiro recebe menos turista do que uma torre de metal na França”, resumiu Fernando Cinelli, Fundador e Presidente da Apex.
Espírito Santo na mira: convenção com 2 mil vendedores e o modelo Porto Seguro de criação de destino
O movimento mais concreto desse reposicionamento tem nome e data: a CVC Corp está finalizando os preparativos para realizar sua convenção nacional no Espírito Santo, reunindo mais de 2 mil vendedores no estado. A iniciativa é descrita por Mader como o marco simbólico do compromisso da companhia com a região. “Estou muito próximo de fechar a nossa convenção no Espírito Santo, levando mais de 2 mil vendedores para o estado, no intuito de fazer com que esse seja o marco do investimento da companhia na região”, disse o CEO. Guarapari, Pedra Azul e Vitória foram citados como os principais destinos a serem apresentados à força de vendas.
A lógica operacional remete diretamente à experiência da CVC com Porto Seguro e Gramado. No caso de Gramado, a transformação é emblemática: o PIB da cidade, que há 20 ou 30 anos era essencialmente zero em turismo, hoje é composto em 80% por atividade turística. O modelo da companhia é levar a demanda primeiro, antes mesmo de a infraestrutura hoteleira estar completa, para então atrair o investimento privado em hospedagem, gastronomia e entretenimento. “A gente acredita que primeiro tem que fazer a demanda chegar e depois a oferta justa”, explicou Cinelli. “Só o que precisa agora do Espírito Santo é postar o Espírito Santo. O resto está posto, está pronto.”
O paralelo com Dubai também foi trazido ao debate por Mader: a cidade construiu um PIB turístico de cerca de US$ 50 bilhões em 30 anos, partindo de um deserto, por meio de planejamento em etapas e criação deliberada de infraestrutura de atração. “Dubai fez um planejamento, fez um investimento muito grande, mas começou fazendo o quê? Criou o aeroporto. Começaram no projeto do stopover. Foi um dia, depois foi dois dias, hoje você faz uma viagem de 14 dias e não conhece Dubai, porque as coisas foram acontecendo”, afirmou o CEO da CVC.
Ambiente regulatório e densidade de talentos: o que separa as ‘onças’ dos demais estados
No mesmo painel, o CEO da Falconi, Alexandre Ribas, analisou o desempenho dos mercados regionais sob uma perspectiva estrutural. Para ele, os estados que crescem acima da média compartilham dois ativos difíceis de replicar no curto prazo: ambientes regulatórios mais estáveis e maior densidade de capital intelectual. O raciocínio tem base na equação de Cobb-Douglas: o PIB é função do capital investido, da mão de obra aplicada e da produtividade total dos fatores, variável que depende do nível de conhecimento e tecnologia local. Estados com ambiente regulatório previsível e alta concentração de talentos deslocam essa variável para cima de forma sustentada, entrando em uma espiral positiva de atração de capital e qualificação crescente da mão de obra.
“Os mercados regionais têm potencial para se tornarem motores de crescimento nacional. Não por acaso, muitas soluções de competitividade e inovação nascem fora dos grandes centros. O desafio está em transformar esse potencial em escala, o que exige diagnóstico rigoroso, governança eficaz das instituições de investimento e políticas públicas que incentivem a produtividade local”, afirmou Ribas.


