O Brasil foi o segundo país do mundo que mais recebeu fluxo líquido de Investimento Estrangeiro Direto (IED): US$ 46,8 bilhões entrados no país em 2024, o equivalente a 2,5% do PIB nacional, atrás apenas de Cingapura. O dado é do World Investment Report 2025 e foi apresentado por Lucas Schuller, especialista de dados econômicos da Apex, durante o BRM São Paulo, evento que reuniu empresários, investidores e lideranças econômicas na capital paulista. O estoque acumulado de capital estrangeiro no Brasil chega a US$ 914 bilhões, 41% do PIB, posicionando o país na 10ª maior posição mundial. O dado coloca os mercados regionais brasileiros, responsáveis por 36% do PIB nacional e 45% das exportações do país, no centro da discussão para onde esse capital deve fluir nos próximos anos.
2º maior destino de IED do mundo: o capital que não passa pela bolsa
O número de 2024 não é anomalia. Entre 2007 e 2024, o Brasil registrou saldo líquido positivo de IED em todos os anos do período, figurando sempre entre os cinco principais destinos globais. A média histórica é de 3,5% do PIB ao ano em fluxo de capital estrangeiro produtivo. Das mais de 19 mil empresas estrangeiras com operações ativas no Brasil, 74% são companhias não listadas em bolsa. Outros 17% correspondem a fundos de investimento, e apenas 9% a empresas listadas.
Os setores que mais concentram esse fluxo são exatamente aqueles em que o Brasil e os mercados regionais brasileiros têm protagonismo à nível mundial: petróleo, gás natural e petroquímico, agronegócio e alimentos, mineração e metalurgia, setor elétrico e papel e celulose. Esses setores têm forte presença nas chamadas Onças Brasileiras, o conjunto de oito estados que crescem acima da média nacional: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo.
De 53% para 58% do PIB: os mercados regionais tomam o lugar do eixo tradicional
O deslocamento do peso econômico brasileiro em direção aos mercados regionais é um movimento de longo prazo e consistente em todos os setores. Entre 2002 e 2023, a participação dos mercados regionais no PIB do Brasil cresceu de 53% para 58%, uma expansão de 5 pontos percentuais registrada simultaneamente na agropecuária, na indústria e nos serviços, segundo dados do IBGE. No mesmo período, o eixo Rio–São Paulo perdeu participação em todos esses grupos.
“Se for analisar o mercado regional, ou seja, todos aqueles estados além do tradicional eixo Rio–São Paulo, podemos ver que os mercados regionais vêm se destacando quando o assunto é atividade econômica. De 2002 a 2023, a participação dos mercados regionais no PIB do Brasil cresceu de 53% para 58%, um aumento de 5%. E podemos ver esse movimento acontecendo em todos os grupos do PIB: agropecuária, indústria e serviços”, afirma Lucas Schuller.
Dentro dos mercados regionais, oito estados se destacam como os principais motores desse avanço. As Onças Brasileiras saíram de 31% para 36% de participação no PIB nacional entre 2002 e 2023, respondendo por praticamente toda a expansão dos mercados regionais sobre o eixo tradicional no período. O ritmo de crescimento foi de 2,4% ao ano, contra 2,2% do Brasil como um todo.
A presença no comércio exterior é ainda mais expressiva do que o peso no PIB sugere: com 36% do PIB, as Onças respondem por 45% de toda a corrente de comércio do Brasil, por 45% das exportações e por 49% das importações, segundo dados do IBGE e do MDIC de 2026. Em 2025, a corrente de comércio do Brasil bateu recorde histórico, somando US$ 630 bilhões. O Espírito Santo lidera as exportações nacionais de minério de ferro em pelotas, Santa Catarina em carne suína, Paraná em carne de frango, Mato Grosso em carne bovina e soja, Mato Grosso do Sul em celulose, Minas Gerais em café e metais e Rio Grande do Sul em fumo.
“Esses estados representam 36% do PIB, mas na corrente de comércio, ou seja, tudo que entra e sai, exportação e importação, as Onças representam 45% do que é movimentado no Brasil. E temos protagonismos em todos esses estados, em algumas cadeias que são super relevantes. Espírito Santo, com minério de ferro; os estados do centro-oeste, com cadeias econômicas de segurança alimentar”, destaca Schuller.
Fiscal A+, dívida negativa e fundo soberano: o ambiente que atrai capital
Para o investidor estrangeiro, a qualidade do ambiente institucional local é variável decisiva na alocação de capital. Nesse quesito, as Onças Brasileiras acumulam credenciais objetivas. O ranking CAPAG 2025 do Tesouro Nacional (avaliação da capacidade de pagamento dos estados, que mede endividamento, poupança corrente e liquidez) atribui nota máxima A+ a quatro Onças: Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. O eixo Rio–São Paulo, como conjunto, ficou com nota B.
A taxa de investimento estadual média das Onças é de 12%, contra 8% do Brasil. O Espírito Santo lidera com 20%. Três estados já operam com dívida líquida negativa: Espírito Santo em -53% da receita líquida, Mato Grosso em -15% e Paraná em -5%. O Espírito Santo converteu esse excedente fiscal no Funses, o primeiro fundo soberano estadual do Brasil. O Paraná instituiu o seu próprio na sequência. Todos os oito estados das Onças figuram entre os dez mais competitivos do Brasil no Ranking do Centro de Liderança Pública (CLP) 2025, com Santa Catarina em 2º, Paraná em 3º e Minas Gerais em 6º lugar nacional.
“Quanto melhor a responsabilidade fiscal, melhor a taxa de investimento estadual. E é com isso que a gente pode ver que as Onças Brasileiras têm indicadores de investimento acima da média do Brasil. Também têm um grau de dependência financeira menor, ou seja, menor dependência de repasses do governo federal. E alguns desses estados possuem até dívida líquida negativa, ou seja, recursos com liquidez acima do nível de endividamento. O destaque para o Espírito Santo, o Paraná e o Mato Grosso”, afirmou o especialista econômico da Apex.
Mercado de trabalho aquecido, renda 23% maior e capital estrangeiro na rota das Onças
A atratividade para o investimento produtivo passa também pelo mercado de trabalho. A taxa de desocupação média das Onças é de 3,4%, ante 5,1% do Brasil, segundo o IBGE 2025. Santa Catarina registra 2,2%, a menor do país. Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso aparecem empatados em 2,4%. A taxa de informalidade também é inferior: 33,9% nas Onças contra 37,6% na média nacional. Entre 2012 e 2025, a renda média mensal nas Onças cresceu 23% em termos reais, contra 18% do Brasil, chegando a R$ 3.700 ante R$ 3.508 da média nacional. O movimento atrai população: entre 2017 e 2022, as Onças acumularam saldo migratório positivo de 804 mil brasileiros, enquanto São Paulo perdeu 90 mil habitantes e o Rio de Janeiro, 165 mil.
O posicionamento geopolítico do Brasil reforça a atratividade do país para o capital estrangeiro produtivo. Com diplomacia historicamente neutra, distância dos principais focos de conflito, infraestrutura logística e energética em expansão e matriz elétrica 90% renovável, a terceira maior geração de energia renovável do mundo, o Brasil se consolida como destino para o conceito de nearshoring (relocalização de cadeias produtivas para países geograficamente próximos e politicamente estáveis).
O acordo Mercosul–União Europeia, o maior entre blocos da história, com US$ 22 trilhões de PIB combinado e 720 milhões de pessoas no raio de influência, adiciona mais um vetor de abertura comercial. Na projeção da Apex, o Brasil deve avançar do 8º para o 5º maior produtor mundial de petróleo até 2030, com produção saindo de 3,7 para 5 milhões de barris por dia, movimento que beneficia diretamente estados como o Espírito Santo, terceiro maior produtor nacional.
“E, diante desses dados, é possível analisar que as Onças Brasileiras têm uma característica ímpar”, conclui Schuller.
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