A arquitetura sempre moldou a forma de morar, circular e viver as cidades, mas poucas vezes ocupou, no Brasil, um espaço à altura de sua influência na vida cotidiana. A criação da Bienal de Arquitetura Brasileira surge justamente nesse ponto: como uma tentativa de tirar o tema do nicho e levá-lo a um circuito mais amplo de cultura, experiência e visibilidade. Entre os nomes à frente desse movimento está o capixaba Raphael Tristão, idealizador do evento que será realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, entre os dias 25 de março e 30 de abril. A mostra reunirá, em um mesmo pavilhão, escritórios de todos os estados do país, em um recorte que amplia a representatividade da arquitetura brasileira e ajuda a projetar diferentes territórios, linguagens e modos de construir para o centro do debate nacional.
“Quero que qualquer família saia perguntando: por que a minha casa não é assim?”
Por trás do projeto estão Raphael Tristão e Anna Rafaela Torino, cofundadores da Archa, plataforma digital voltada ao setor de arquitetura e design, que hoje reúne 125 mil profissionais cadastrados. A bienal foi estruturada de forma independente, e nasceu com a proposta de colocar a arquitetura em um espaço mais amplo de discussão cultural, no mesmo campo de áreas como cinema, música e teatro.
Tristão explica que, mais do que criar um novo evento para o calendário do setor, a proposta da BAB é ampliar o alcance da arquitetura no imaginário popular. Isso porque, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo CAU Brasil, apenas 9% das obras residenciais do país contam com acompanhamento de um arquiteto. É esse distanciamento entre a arquitetura e a vida real das famílias brasileiras que a bienal pretende enfrentar, ao levar para o público espaços que podem ser percorridos, experimentados e comparados.
“Quero que qualquer família entre em um dos nossos pavilhões e saia de lá perguntando: ‘por que a minha casa não é assim?’ Esse desconforto produtivo é exatamente o que precisamos. É ele que move o mercado, valoriza a profissão e muda a conversa sobre o que a arquitetura pode ser para a vida das pessoas. Estamos dizendo que a arquitetura é cultura, e precisa ser tratada com o mesmo status que a música, o cinema, o teatro. Não é só serviço técnico. É expressão cultural de um povo”, aponta o idealizador.

A trajetória de Raphael também ajuda a explicar a construção do projeto. Capixaba, ele desenvolveu a Archa ao longo de dez anos, sem capital de risco ou aceleradoras, em um movimento de crescimento gradual dentro do próprio ecossistema da arquitetura. A ligação com o setor vem da própria história familiar: sua mãe, Rita Tristão, comandou por quase três décadas a CASACOR Espírito Santo e hoje lidera a área de arquitetura e obras da bienal.
“O Espírito Santo me deu uma das coisas mais valiosas que um empreendedor pode ter: a consciência de que você não está no centro do mapa. A gente tem uma economia robusta, uma cultura diversíssima — indígena, italiana, alemã, pomerana, africana, árabe — e uma capacidade enorme de resolver problemas com criatividade. Mas por décadas o estado ficou fora das narrativas nacionais. O que isso gerou nas pessoas que escolheram empreender aqui foi um senso de propósito e uma habilidade de trabalhar com muita garra, de se virar. Eu carrego isso”, afirmou Tristão.
Ele explica que, na BAB, um dos diferenciais está no modelo adotado. Ao contrário de bienais mais conceituais, a mostra brasileira aposta em ambientes físicos já montados, permitindo que o visitante entre, circule e vivencie os projetos. A escolha também foge do padrão tradicional de convites. Mais de 1.300 escritórios se inscreveram no concurso realizado em 2025, em um processo de avaliação cruzada entre participantes de diferentes regiões do país, com validação final dos conselhos locais de arquitetura. O resultado foi a formação de uma seleção nacional ampla, com representantes de estados que historicamente ficam fora dos grandes circuitos do setor.
Outro eixo central do projeto é a organização do espaço a partir dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. A ideia é mostrar como clima, território, materiais e cultura influenciam diretamente a forma de morar e construir em cada parte do país. Na prática, isso desloca o olhar da divisão política dos estados para uma leitura mais conectada ao ambiente e à identidade de cada região.
“A decisão de organizar pelos biomas foi o achado mais feliz de todo o processo criativo da BAB. O resultado disso é que vamos ter em São Paulo um projeto do Acre que nunca teria chegado a esse palco por vias convencionais. Um escritório de Roraima que poderia nunca ser convidado por nenhuma curadoria tradicional. Uma proposta do Piauí que vai fazer um arquiteto paulistano questionar suas referências. Isso é o que uma bienal deveria fazer: ampliar o horizonte. E estamos fazendo isso não por concessão, mas porque o processo foi desenhado para isso desde o começo”, finaliza Tristão.


