Construir uma empresa no Brasil é, no mínimo, desafiador — a frase soou quase como provérbio no painel que reuniu líderes de setores distintos no evento Brazilian Regional Markets em Brasília, realizado essa semana na capital federal. A ressalva, porém, veio logo em seguida: quem aprendeu a operar nesse ambiente não apenas sobrevive, mas encontra oportunidades onde outros enxergam apenas ruído. Foi com essa lente que Vinicius Brum, VP de Operações da Falconi, e Gustavo Quedevez, sócio de Corporate do BVA – Barreto Veiga Advogados, construíram dois dos argumentos mais técnicos e propositivos do debate.
O cenário de fundo era generoso em complicadores: eleição em 2026, Copa do Mundo, incerteza macroeconômica, juros elevados. Mas foi justamente na adversidade que cada um dos dois encontrou o fio condutor de sua análise, e ambos chegaram a um diagnóstico comum: o Brasil não precisa de soluções inéditas, precisa de disposição para executar o que já sabe.
O Estado que atrapalha — e o que pode parar de atrapalhar amanhã
Vinicius Brum começou pelo que a Falconi observa nos três eixos em que atua: a própria operação, os clientes privados e, mais recentemente, governos em agendas de eficiência e produtividade.
O argumento ganhou musculatura com dados. Em 2010, o PIB brasileiro representava cerca de 3,5% do PIB mundial. Em 2025, essa fatia caiu para 2,4% — mesmo com crescimento nominal. O país, na avaliação de Brum, não está apenas crescendo menos do que outras nações em desenvolvimento, está crescendo pior, porque a qualidade do que é gerado não acompanha o que os indicadores sociais demandam.
A variável que ele escolheu como centro da análise foi a mão de obra. Segundo dados do IBGE, 38% da população em idade ativa está fora do mercado de trabalho, muitas vezes incentivada pelas características de programas sociais vigentes. Ao mesmo tempo, o Brasil perde sua janela demográfica, que durou cerca de 40 a 50 anos. O resultado é que não sobram muitas alternativas para ganhar competitividade que não passem por investir na produtividade do trabalhador.
A comparação internacional foi o ponto mais contundente. A produtividade do trabalhador indiano cresce 3,5% ao ano. No México, 1,7%. No Brasil, 0,5%. Enquanto isso, a base de trabalhadores cresce na Índia e no México, e encolhe no Brasil. Brum resumiu o impasse:
“Onde um trabalhador brasileiro precisa de muito mais tempo para produzir o mesmo valor que um trabalhador na Índia ou no México, nós estamos com uma questão”, apontou.
Mas o diagnóstico não ficou sem saída. Brum apontou o que pode ser feito sem depender de reformas legislativas ou de ciclos políticos longos. A tecnologia, em especial a inteligência artificial, já está disponível e acessível para a gestão pública, mas ainda é subutilizada. O modelo dominante, segundo ele, ainda é o de que para fazer mais, é preciso mais pessoas e mais dinheiro.
A ruptura começa em outra direção: eliminar o que não precisa mais ser feito. Brum desafiou a plateia a imaginar os 5.800 municípios brasileiros, com seus estados e estruturas federativas, cheios de processos, entregas e estruturas criadas décadas atrás para resolver problemas que já não existem mais, e que ninguém questiona se ainda fazem sentido.
“Não é uma questão de melhorar o processo. É eliminar o processo”, completou.
O Paraná foi citado como referência concreta do que esse ajuste produz na prática. Com quase 15 bilhões em caixa e investimentos bilionários contratados para os próximos 15 a 20 anos, o estado tem indicadores sociais que servem de benchmark nacional. Resultado, na leitura de Brum, de uma gestão que olha para dentro da máquina pública e transforma racionalização em disponibilidade fiscal real.
Data centers, licenciamento ambiental e a corrida que o Brasil ainda pode ganhar
Gustavo Quedevez, sócio de Corporate do BVA – Barreto Veiga Advogados, trouxe para o debate a perspectiva de quem acompanha os contratos e vê os entraves se materializando. O ponto de entrada foi a transição energética e os investimentos em data centers — dois temas que, para ele, concentram hoje as principais tensões entre o ambiente regulatório brasileiro e a velocidade que o mundo exige.
O primeiro gargalo que Quedevez identificou foi a falta de mão de obra qualificada, especificamente para a gestão de contratos de grande porte em energia. Há três ou quatro anos, clientes começaram a enfrentar problemas com prestadores que tinham competência técnica, mas careciam de gestão. O resultado chegou aos escritórios jurídicos na forma de garantias acionadas e contratos em colapso. Na visão do especialista, o problema revelou algo mais profundo: o CAPEX gigantesco desses empreendimentos demanda uma sofisticação de gestão contratual que ainda é escassa no mercado.
O segundo ponto foi o licenciamento ambiental: a questão central, para Quedevez, não é a existência de regras, mas a ausência de coordenação federativa. Cada estado, cada região impõe sua lógica, e o empresário precisa se adaptar a cada uma delas.
“Na maior parte dos estados, se a gente consegue ter entradas com a autoridade pública, as coisas avançam. Mas muitas vezes eles mesmos estão presos dentro de uma rotina que não tem uma coordenação objetiva”, explicou.
O endosso ao que o governador Eduardo Leite trouxe no mesmo evento foi explícito: cabe à federação coordenar a legislação e unificar o entendimento, reduzindo a fragmentação que hoje impõe custos invisíveis mas reais a qualquer projeto de escala.
O terceiro desafio foi o mais estratégico: o aspecto regulatório dos data centers e a posição do Brasil em uma corrida global. Quedevez foi objetivo: o país compete com União Europeia, Estados Unidos e Singapura, e os equipamentos necessários para instalar um data center custam hoje 30% mais no Brasil do que nos principais concorrentes. Qualquer política séria de atração de investimentos precisa resolver essa equação antes de qualquer outra coisa.
A boa notícia, segundo ele, é que o debate avança. A política nacional de data centers está sendo desenvolvida, e há projetos de lei em discussão para um regime especial de tributação que reduziria esse diferencial de custo. Ele aponta que a aprovação desse marco é condição necessária para que o Brasil ganhe competitividade real nesse setor.
“A gente precisa deixar essa curiosidade de lado. O que a gente vê é um regime especial que vai permitir que a gente ganhe competitividade e que esses empreendimentos evoluam”, finalizou.
O Brasil que já sabe o que fazer
O fio que conecta as falas de Brum e Quedevez é o diagnóstico propositivo. Ambos descrevem um país que já acumulou o conhecimento técnico para avançar: sabe quais processos eliminar, quais marcos regulatórios construir, quais custos reduzir, quais tecnologias adotar. Em um painel com múltiplas perspectivas setoriais, os dois deixaram claro que crescer apesar do Brasil não é uma fatalidade. É uma escolha que o país faz ao postergar reformas que não dependem de descoberta, mas de decisão.


