A área de Research da Apex apresentou nesta quarta-feira (11), no BRM Brasília, um estudo inédito sobre o potencial dos mercados regionais brasileiros. Na voz de Lucas Schuller, especialista de dados da casa, os números deixaram pouco espaço para dúvida: os oito estados chamados de Onças Brasileiras — Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo — não só crescem mais do que o Brasil há duas décadas como também entregam melhores resultados em emprego, renda, educação, segurança e desenvolvimento humano.
O ponto de partida foi a evolução do peso dos mercados regionais — os estados além do eixo Rio–São Paulo — no PIB nacional. Em 2002, eles respondiam por 53% da economia brasileira. Em 2023, chegaram a 58%. Dentro desse movimento, as Onças saíram de 31% para 36% do PIB, crescendo a uma taxa composta anual de 2,4%, contra 2,2% do Brasil como um todo. Em 20 anos, essa diferença de 0,2 ponto percentual ao ano produziu um efeito expressivo de acumulação de riqueza e afastamento da média nacional.
Fiscal em ordem, investimento acima da média
A pesquisa da Apex identificou que o denominador comum das Onças é a responsabilidade fiscal. No ranking de capacidade de pagamento do Tesouro Nacional — que avalia endividamento, poupança corrente e liquidez —, sete estados do Brasil têm nota máxima, o A+.
Quatro deles são Onças: Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. Os demais estados do grupo também evoluem: Goiás e Mato Grosso do Sul têm nota B+; Minas Gerais e Rio Grande do Sul, nota C, mas com medidas em curso para melhorar o quadro fiscal.
Essa disciplina se traduz diretamente em capacidade de investimento. A taxa de investimento fiscal das Onças é de 12% da receita, contra 8% do Brasil.
O destaque é o Espírito Santo, que investe 20% — a maior taxa entre todos os estados brasileiros. Três estados do grupo — Paraná, Espírito Santo e Mato Grosso — têm dívida líquida negativa, ou seja, mais caixa do que dívida. E a dependência financeira da União nas Onças é de 20%, contra 26% no Brasil: quanto menor esse indicador, maior a autonomia do estado para tomar decisões de investimento sem depender de transferências federais.
Emprego, renda e o poder de atrair gente
O mercado de trabalho das Onças é consistentemente mais aquecido do que o do restante do país. Desde o início da série histórica do IBGE, em 2012, todos os oito estados do grupo registram taxa de desemprego abaixo da média nacional. O dado mais recente mostra 3,4% de desocupação nas Onças, contra 5,1% do Brasil.
Santa Catarina é o caso extremo: 2,2% de desemprego, nível comparado aos países mais desenvolvidos do mundo e o menor índice de todo o Brasil. Além do desemprego menor, as Onças têm também menor taxa de informalidade. E a renda média real cresceu 23% nessas economias desde 2012, contra 18% do Brasil.
Esse ambiente mais produtivo também se reflete no fluxo populacional. De 2017 a 2022, sete das oito Onças receberam mais brasileiros de outros estados do que perderam, com saldo positivo agregado de 800 mil pessoas. No mesmo período, São Paulo teve saldo negativo de 90 mil habitantes e o Rio de Janeiro, de 165 mil. Santa Catarina lidera as entradas; Goiás aparece em segundo. O dado é relevante porque população é também economia: mais gente, mais consumo, mais crescimento inorgânico.
IDH, segurança e serviços públicos acima da média
No Índice de Desenvolvimento Humano, as Onças também se destacam. Todos os oito estados estão entre os dez menos vulneráveis do país: a população vulnerável média nas Onças é de 15%, contra 23% no Brasil.
Na educação básica, sete das Onças batem a meta do IDEB. E na avaliação dos serviços públicos — uma pesquisa própria da Apex com mais de 2 mil entrevistados, divulgada na semana passada —, os três setores avaliados (educação, saúde e segurança pública) têm notas mais altas nas Onças do que na média nacional.
Na segurança, o contraste é especialmente marcante: 85% da população das Onças declara não ter sofrido violência nos últimos dois anos, contra 78% no Brasil.
Capital estrangeiro chega ao Brasil, mas ainda passa longe das Onças
O Brasil é hoje o segundo país do mundo que mais recebe investimento estrangeiro direto — capital produtivo, que financia fábricas, projetos de energia renovável e novas empresas, não o dinheiro especulativo que entra e sai da bolsa todo dia. Em 2024, o país atraiu quase 47 bilhões de dólares líquidos, ficando atrás apenas de Singapura. As Onças, que representam 35% do PIB, já respondem por 45% do comércio exterior brasileiro — um sinal claro de maior inserção na economia global.
Mas há uma assimetria relevante: as multinacionais instaladas no Brasil ainda estão concentradas no eixo de São Paulo. O estoque de crédito, o financiamento imobiliário e o financiamento do agronegócio também seguem sub-representados nas Onças.
O diagnóstico da Apex é direto: as Onças crescem, têm fundamentos sólidos e potencial demonstrado — mas o mercado financeiro e de capitais ainda não as acompanhou. Fechar essa lacuna é o que garante que essas economias continuem crescendo de forma sustentável e gerem prosperidade para além das suas fronteiras.


