Aracruz, no norte do Espírito Santo, entrou de vez no radar dos grandes investimentos industriais e logísticos do país. Com projetos como o Porto da Imetame e a futura operação da montadora chinesa GWM, a cidade passou a viver um novo ciclo de crescimento, impulsionado também por ativos estratégicos como porto, ferrovia, rodovias e a estrutura da ZPE, que ampliam sua competitividade para indústria, exportação e operações de apoio. O movimento tende a acelerar a demanda por comércio e serviços, mas já acende um alerta: a demanda por moradia, infraestrutura urbana e mão de obra pode crescer mais rápido do que a capacidade local de resposta, pressionando preços e reduzindo a oferta de imóveis.
Novo ciclo exige planejamento de cidade, aponta presidente da Fecomércio-ES
Na avaliação de Idalberto Moro, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), o município vive uma mudança de patamar que vai muito além da chegada pontual de uma empresa. O que está em curso, segundo ele, é uma transformação da matriz econômica local, puxada principalmente pela consolidação de uma estrutura logística capaz de atrair uma cadeia inteira de negócios.
Ele explica que a diferença, desta vez, é a escala. Não se trata de um investimento isolado, mas de vários movimentos acontecendo ao mesmo tempo e puxando outros na sequência. Uma grande planta industrial atrai fornecedores. Um porto reorganiza fluxos logísticos. Novas operações ampliam a demanda por galpões, transporte, alimentação, hospedagem, saúde, serviços técnicos e comércio.
“O que está acontecendo em Aracruz, com a construção do Porto, é uma transformação na matriz econômica, abrindo oportunidades em várias frentes do setor produtivo. Um exemplo, além da indústria automobilística com a chegada da fábrica da GWM, são os mercados de café e granito, que passarão a exportar por ali. Então, diferente de quando o movimento se restringe a um único projeto, é todo um ecossistema que está acontecendo ali”, afirma.
Esse avanço, no entanto, vem acompanhado de gargalos que já começam a aparecer. O principal deles, segundo o presidente da Fecomércio-ES, é a capacidade de a cidade absorver, em curto prazo, um crescimento tão acelerado, especialmente quando se olha para mão de obra e estrutura urbana.
“Aracruz transforma-se, neste momento, alvo de uma cadeia enorme de serviços, indústria, comércio e serviços, que vão transformar muito a região. Com isso, muitos problemas, virão juntos. A mão de obra, por exemplo, Aracruz já está colapsada. A região terá que realmente se preparar para uma mudança e buscar gente para os municípios vizinhos e até mesmo fora do Espírito Santo”, aponta.
É justamente nesse ponto que Aracruz pode enfrentar um dos efeitos colaterais mais imediatos do novo ciclo: a escassez imobiliária, já que a chegada simultânea de grandes projetos costuma elevar a procura por moradia antes que a cidade consiga ampliar sua oferta de imóveis e bairros estruturados. O novo ciclo também tende a pressionar preços em toda a cadeia local, causando encarecimento não apenas dos aluguéis e terrenos, mas também do custo operacional das empresas.
Na leitura de Moro, Aracruz já viveu algo parecido no passado, quando a então Aracruz Celulose precisou viabilizar uma solução urbana própria para acomodar sua operação.
“Na época, houve a necessidade de fazer um bairro planejado, que foi o bairro Coqueiral, que foi construído exatamente com a concepção de atender os funcionários da Aracruz Celulose. Com a chegada desses projetos, é preciso buscar alternativas e isso também não se faz da noite para o dia. Desde já, tem que existir um projeto de habitação para receber toda essa demanda. Replicar esse tipo de case, como o da Aracruz Celulose, pode ser um caminho possível para o novo ciclo de expansão da cidade”, finaliza.


